A Endometriose é uma Doença que Aparece, Sobretudo, a Mulheres em Idade Fértil.

2021-02-25

No passado dia 21 de fevereiro, a Dra. Cláudia Andrade, especialista em Ginecologia e Obstetrícia na Clivida, concedeu uma entrevista ao Diário de Aveiro sobre a Endometriose, uma doença que aparece, sobretudo, a mulheres em idade fértil.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

Os sintomas relacionam-se com o período menstrual e com a localização da doença. Caracteriza-se por uma quadro clínico doloroso durante o período menstrual, com cólicas intensas, dores a urinar ou a defecar ou dores nas relações sexuais.
Esta doença está muito relacionada com a infertilidade, ou seja, casais que não conseguem engravidar. Estima-se que 25-50% dos casos de infertilidade feminina parecem estar relacionados com esta causa.

QUEM TEM MAIOR PROPENSÃO?

Esta doença aparece sobretudo em mulheres em idade fértil. A probabilidade de ter esta doença é 3-10 vezes maior em mulheres com familiares com endometriose. Depois existem outros factores de risco menores, como é o caso de ser portadora de uma malformação do trato genital, de ser nulípara (sem filhos) ou ter começado a menstruar muito cedo ou ter entrado na menopausa tardiamente.

QUAIS SÃO AS CAUSAS?

Não existe uma causa bem definida e até hoje são várias as teorias que tentam explicar o seu aparecimento. Uma delas apoia-se no facto das glândulas endometriais, que revestem o interior do útero, migrarem através das trompas para a cavidade pélvica e abdominal. Existe uma carga genética ou mutações associadas que tornam estas glândulas resistentes às defesas do nosso corpo.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

Estudos demonstram que em média demora-se 7 anos a diagnosticar endometriose. Isto deve-se ao quadro inespecífico de sintomas ou mesmo a existência de endometriose em mulheres assintomáticas. Por outro lado, existe alguma falta de alerta por parte dos médicos para a suspeita deste diagnóstico.
O alerta é feito inicialmente ou pelo quadro doloroso ou pela história de infertilidade associada. Após a suspeita, este diagnóstico deve ser suportado pela realização de outros exames complementares como a ecografia ginecológica e a ressonância magnética. A confirmação só é feita após realização de biópsia que acontece já quando há indicação para uma abordagem cirúrgica. De salientar que, tal como em outras doenças, é fundamental que estas consultas e estes exames sejam feitos por equipas treinadas em tratar e diagnosticar endometriose, dado à especificidade e variedade de apresentação desta doença.

É POSSÍVEL PREVENIR? DE QUE FORMA?

Não é possível prevenir esta doença. Existem apenas alguns factores protetores como ter filhos, amamentar por longos períodos ou usar contraceptivos orais (as pílulas).

HÁ TRATAMENTO? EM QUE CONSISTE?

O tratamento de endometriose é feito com cirurgia. Esta pode ir desde a simples remoção de quistos nos ovários ou queimar focos superficiais de endometriose, a abordagens mais complexas como a remoção de nódulos complexos e grandes sobre o útero, remoção de parte do intestino ou remoção de um rim. Deverá ser feita por cirurgia minimamente invasiva, maioritariamente por laparoscopia e em equipas multidisciplinares e treinadas. A laparoscopia é uma técnica cirúrgica em que a abordagem à barriga é feita por pequenas incisões na pele onde entram os instrumentos cirúrgicos e a camera, após encher a barriga com gás. Tem múltiplas vantagem para a doente e para o cirurgião, tais como uma recuperação mais rápida, menos tempo de internamento, menor perda de sangue, esteticamente mais agradável, menos riscos de complicações associadas à ferida operatória, menor risco de aderências e portanto menos infertilidade, e melhor visualização das estruturas anatómicas permitindo ao cirurgião preservar todo o tecido são em redor da doença.
O uso de hormonas é também um das abordagem de tratamento possível dado que permite controlar os sintomas, embora não impeça a progressão da doença.

ESTA DOENÇA TEM UM FORTE IMPACTO NA QUALIDADE DE VIDA DA MULHER?

Sem dúvida. Estas mulheres passam anos a sofrer com dores antes de terem um diagnóstico. São dores descritas como muito intensas, incapacitantes, sobretudo associadas aos dias da menstruação e com grande impacto quer físico quer psicológico. Depois existe ainda o impacto da infertilidade que afecta estes casais, com um prognóstico incerto quanto à possibilidade de conseguirem engravidar.

Outra questão que gostava de salientar é que a endometriose apesar de ser uma doença benigna tem um comportamento expansivo, podendo aparecer em quase todos os sítios do corpo e não tem um tratamento definitivo. Por isso o seu impacto é bastante vasto e pode ser devastador. Lembro-me de uma doente que quando menstruava ficava em cadeira de rodas sem conseguir andar, pois tinha endometriose no nervo femoral, o nervo que inerva a perna e que permite andar.
Existe ainda o risco de endometriose associada ao cancro do ovário, sobretudo naquelas mulheres que apresentam quistos de endometriose volumosos. Estas devem ser sempre estudadas de forma a excluir a possibilidade de terem cancro.

QUEM TEM ENDOMETRIOSE CONSEGUE ENGRAVIDAR? SE NÃO, HÁ FORMAS DE CONTORNAR A QUESTÃO?

Quem tem endometriose pode conseguir engravidar espontaneamente, sem dificuldade. Muitas das mulheres com endometriose são assintomáticas e o diagnóstico é feito no contexto de pesquisa de outras doenças. No entanto, de todos os casais com infertilidade pensa-se que cerca de 50% das causas será devido à endometriose. Nestes casos é necessário realizar técnicas de procriação medicamente assistidas para se conseguir engravidar. Também há estudos que demonstram que 45-50% das mulheres engravidam espontaneamente após a cirurgia de endometriose. A decisão entre começar por tratamentos para engravidar ou operar primeiro deve ser feita em equipa e adequar caso a caso de forma a tirar a maior vantagem para aquele casal.

AS MULHERES ESTÃO CADA VEZ MAIS INFORMADAS?

Sim sem dúvida. Esta doença é uma doença “da moda”, quer na comunidade científica onde se tem dedicado muita atenção em investigação e congressos internacionais na última década, quer na população em geral por aumento da informação disponibilizada sobretudo em meios digitais. Vê-se um aumento crescente de grupos de partilha de experiências e mesmo de associações ligadas à endometriose (como por exemplo a MulherEndo.pt) de forma a apoiar estas doentes, que durante anos foram, de certa forma, “ignoradas”. Este apoio é realizado de formas variadas, nomeadamente na orientação destas doentes a procurar profissionais de confiança e experientes nesta área.

OUTRAS QUESTÕES QUE CONSIDERE RELEVANTE ACRESCENTAR.

Em jeito de resumo, a endometriose é uma doença frequente em mulheres jovens, caracterizada por um quadro de dor intensa durante a menstruação e que pode dar infertilidade. O diagnóstico muitas vezes é tardio e é feito pelos sintomas e por outros exames complementares. O alívio dos sintomas pode ser feito com o uso de hormonas mas o tratamento é feito com cirurgia, com remoção das lesões de endometriose, por cirurgia minimamente invasiva. O mais importante é ser acompanhada por um/uma ginecologista experiente, inserido num grupo de trabalho multidisciplinar.

A Endometriose é uma Doença que Aparece, Sobretudo, a Mulheres em Idade Fértil.