BURNOUT

2022-09-13

Os sintomas do Burnout e as suas limitações mantêm-se mesmo fora do ambiente laboral e «nem sempre melhoram de forma imediata com o afastamento», esclareceu o psiquiatra Pedro Oliveira.

Palpitações, sensação de falta de ar, tonturas, transpiração excessiva, dores de cabeça, cansaço extremo, dores e tensão muscular e dificuldade em adormecer são alguns dos sintomas de uma doença chamada de Burnout. Esta tem afetado cada vez mais pessoas e, por vezes, apenas é diagnosticada numa fase já bastante avançada. Pedro Oliveira, psiquiatra, falou ao Diário de Aveiro sobre esta condição e sobre as medidas que devem ser tomadas.

DIÁRIO DE AVEIRO: Segundo dados de 2016 da Associação de Psicologia da Saúde Ocupacional, 17,3% dos trabalhadores portugueses estão em Burnout. Assim, cada vez mais se ouve falar em burnout. De uma forma resumida e clara, o que é?
PEDRO OLIVEIRA: A síndrome de Burnout é uma doença provocada pelo stresse crónico do trabalho em que a pessoa sente uma exaustão física e mental, sendo acompanhada por uma diminuição objetiva da produtividade laboral. Apesar de ser uma doença provocada pelo trabalho, as suas implicações não se limitam a este, os seus sintomas e limitações mantêm-se mesmo fora do ambiente laboral e nem sempre melhoram de forma imediata com períodos de afastamento do trabalho como nas férias, fins-de-semana ou, em casos mais graves, em períodos de baixa. Muitas vezes, tendem a agravar nas fases iniciais destas interrupções.

DIÁRIO DE AVEIRO: O Burnout ainda não é entendido com a seriedade que deveria ser? Ou já é?
PEDRO OLIVEIRA: Todas as doenças mentais são alvo de incompreensão. Isto acontece desde sempre, uma vez que não apresentam alterações visíveis, tal como acontece com outras doenças. Sempre assim foi. Não há uma perna engessada, como acontece nas fraturas ósseas. Não há uma alteração nas análises ou nos exames de imagem como acontece nas pneumonias. O facto de se tratar de uma doença profissional faz com que muitos doentes tentem disfarçar o seu sofrimento para não serem mal-entendidos pelos colegas. Muitos receiam ser interpretados como preguiçosos, desleixados ou desleais. Além disso, a promoção que a nossa cultura faz da ideia de que o trabalho é algo que se mede pela quantidade e não pela qualidade, fomenta a resistência do doente em pedir ajuda. E esta ideia tem sido, até, fomentada pelos próprios governos e aproveitada por alguns empregadores privados com visão a curto prazo. Muitas vezes, ouço, na minha consulta, pessoas que, apesar de gravemente doentes, se sentem renitentes à possibilidade de ficarem de baixa. Costumam dizer-me: «não sou de meter baixas» ou «trabalho há trinta e tal anos e nunca meti baixa», como se de uma questão de caráter se tratasse.

DIÁRIO DE AVEIRO: Quais são os principais sintomas do Burnout?
PEDRO OLIVEIRA: De facto, podemos dividir os principais sintomas em três esferas: físicos, emocionais e comportamentais, muito embora sejam frequentemente acompanhados também por sintomas cognitivos que, em trabalhos cada vez mais exigentes deste ponto de vista, levam ao agravamento dos anteriores. Indico como sintomas físicos as palpitações, a sensação de falta de ar, tonturas, transpiração excessiva, dores de cabeça, cansaço extremo (mesmo para pequenos esforços), dores e tensão muscular, dificuldade em adormecer ou em manter o sono continuo durante toda anoite, aumento ou diminuição do apetite, alterações gastrointestinais como sensação de enfartamento após as refeições, cólicas diarreia ou obstipação.

DIÁRIO DE AVEIRO: E ao nível emocional?
PEDRO OLIVEIRA: Sob o ponto de vista emocional podemos referir a tristeza, a apatia, a ausência do prazer, o isolamento, a frustração, a irritabilidade, o tédio, a desesperança, a desmotivação, a ansiedade e a baixa autoestima. Também se notam alterações comportamentais, tais como a comunicação impessoal, perda de empatia, atitude crítica, evitamentos, impulsividade, reatividade, agressividade, abuso ou aumento do consumo de substâncias como tabaco, álcool, drogas, medicação, recorrendo frequentemente à automedicação. Podemos referir ainda as alterações cognitivas, como dificuldades de concentração, falhas de memória, dificuldades na organização das tarefas, lentificação no raciocínio, procrastinação e perda de criatividade.

DIÁRIO DE AVEIRO: O que é que contribui para esta sintomatologia?
PEDRO OLIVEIRA: Como disse anteriormente, estes sintomas têm como causa, de uma forma lata, no stresse crónico no trabalho. Todas as profissões são passíveis de provocar este tipo de stresse e, consequentemente, Burnout. Mas claro que há classes profissionais em que o Burnout é mais prevalente. Neste último caso, falamos de profissões que impliquem o contato diário com pessoas a quem prestem determinados serviços: profissionais de saúde, professores, assistentes sociais, agentes de segurança pública como GNR ou PSP, entre outros. Isto deve-se à constante avaliação direta e exigência por parte de quem estão a servir e ao maior envolvimento emocional.

DIÁRIO DE AVEIRO: O Burnout pode ser confundido com depressão?
PEDRO OLIVEIRA: O Burnout tem muitos sintomas semelhantes à Depressão. Muitas das condições que contribuem para o surgimento de sintomas depressivos, também contribuem para o desenvolvimento de Burnout. E são vários os fatores que contribuem para a depressão, por isso, vou focar-me naqueles que estão mais associados ao Burnout. De uma forma simples, podemos dizer que o Burnout pode resultar num desequilíbrio entre os fatores de desgaste/exigência e de proteção/resistência (ou resiliência, como tanto se fala hoje em tom de eufemismo), quer pessoal, como profissional. Como fatores de desgaste/exigência posso apontar o excesso de tarefas, a elevada responsabilidade, a constante pressão por parte dos superiores (não raramente situações de assédio moral, que embora se encontre inclusivamente no código penal, é um crime cujas provas da sua existência são difíceis de demonstrar), a dificuldade pessoal em gerir essas exigências, a ausência de períodos de descanso, o mau ambiente no local de trabalho, o desgaste emocional e cognitivo que levam a uma sensação de incapacidade de levar a cabo o seu trabalho de forma eficaz, contribuem para uma desmotivação e frequentemente a uma irritabilidade e perda de capacidade na resolução de problemas que promove um círculo vicioso. A juntar a este círculo vicioso temos ainda as dificuldades em descansar, em desligar do trabalho e de pedir ajuda.

DIÁRIO DE AVEIRO: E quais são as consequências deste tipo de condição?
PEDRO OLIVEIRA: As consequências pessoais são muitas. É de referir o desenvolvimento a curto prazo de depressões graves, de perturbações de ansiedade, que levam ao isolamento, à perda de empatia, ao comportamento conflituoso com familiares, amigos ou colegas de trabalho e, a médio prazo, conduzem ainda à necessidade de redefinir prioridades e objetivos, raiva e revolta perante o caminho que a vida está a tomar. A juntar a isto, existe a predisposição para um grande número de doenças com sintomatologia a nível físico, de que são exemplo as doenças cardiovasculares (enfartes e AVC), a diabetes, o cancro e as doenças osteoarticulares. As consequências sociais são uma menor produtividade. Por exemplo, no caso dos professores, em que mais de metade sofrem de Burnout, isto leva a uma menor aprendizagem dos alunos em fases fundamentais do seu desenvolvimento. Já se falarmos dos profissionais de saúde, o Burnout leva a um maior risco de erros (que não deve ser confundido com negligência). A isto têm de ser associadas as consequências financeiras do ponto de vista pessoal e de eficácia do sistema com os atrasos, os processos disciplinares, o absentismo laboral e a incapacidade para o exercício das funções.

DIÁRIO DE AVEIRO: Como é que se deve lidar com um ente querido que a passar por um Burnout?
PEDRO OLIVEIRA: Deve oferecer-se ajuda, mas sem pressionar. Deve ser indicada à pessoa vários profissionais de saúde mental que a possam ajudar. Deve estar-se atento e ter uma atitude prestável. É também importante mostrar empatia pelo sofrimento do outro e encorajar a prática de atividade física. Se um ente querido está nessa situação, também pode insistir para que este tire as férias, mesmo que seja por curtos períodos. Deve promover atividades lúdicas que sejam do agrado da pessoa e fomentar os momentos de escuta ativa.

DIÁRIO DE AVEIRO: Tem cura? Ou uma pessoa que tenha passado por burnout estará sempre mais vulnerável?
PEDRO OLIVEIRA: Sim. Na esmagadora maioria dos casos, o Burnout tem cura. A cura passa, inevitavelmente, pelo tratamento dos sintomas depressivos e ansiosos, através do recurso a consultas de psiquiatria e psicologia. Quanto à vulnerabilidade, esta poderá estar presente, caso os fatores de risco se mantenham quer a nível pessoal quer a nível profissional.

DIÁRIO DE AVEIRO: Qual é a melhor forma de prevenir?
PEDRO OLIVEIRA: Do ponto de vista pessoal, há que prevenir o excesso de trabalho. Isto significa que não deve ficar a trabalhar além da hora, não deve levar trabalho para casa, deve manter uma vida social ativa e praticar desporto. Também se pode alertar a entidade empregadora para a existência deste tipo de situações, quer para o próprio, quer para terceiros. É importante demonstrar à entidade que a empresa só tem a ganhar se tudo fizer para manter a sua equipa saudável e se houver uma promoção constante do convívio saudável entre colegas fora do ambiente de trabalho (aqui, deve seguir-se uma regra de ouro: «não se deve falar de trabalho»).

DIÁRIO DE AVEIRO: Estando o Burnout ligado ao meio do trabalho… Que conselho deixa para esse setor?
PEDRO OLIVEIRA: Existem muitas medidas de fácil aplicação para prevenir o Burnout e que se refletirão num maior lucro. Por exemplo, devem estabelecer-se expectativas realistas a todos os colaboradores e garantir que todos compreendem essas mesmas expectativas. Tem de se garantir os recursos e competências que tornem exequíveis essas expectativas, fornecer formação contínua para manter a competência do trabalho, alinhar os objetivos e valores da empresa com os colaboradores e demonstrar como o seu contributo é importante para o sucesso da empresa e para a sua realização profissional. É fundamental ainda estabelecer horários de trabalho razoáveis e incluir, se possível, medidas como o trabalho remoto (de preferência apenas de forma temporária ou parcial), elogiar o cumprimento do horário de trabalho e impedir que este se prolongue além das horas estipuladas.

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