Entrevista com Dr. Pedro Oliveira sobre "A morte faz parte da vida"

2021-11-28

Entrevista para o psiquiatra, falar sobre a morte torna-a mais compreensível. “Ao contrário da maioria dos assuntos, a morte tem-se tornado cada vez mais um estigma, evitando-se falar sobre ela”, disse Pedro Oliveira, psiquiatra aveirense, aborda a forma como as pessoas lidam com a morte e quais foram as repercussões da ausência de despedidas durante a fase pandémica de COVID-19.


DIÁRIO DE AVEIRO: POR QUE MOTIVO SE DEVE FALAR SOBRE A MORTE? AINDA HÁ ESTIGMA OU RELUTÂNCIA EM FALAR SOBRE O TEMA?

Pedro Oliveira: Quando me colocam essa questão costumo responder com outra pergunta “porque é que não se deve falar da morte?”. A morte faz parte da vida. É algo que nos acompanha desde sempre e com o qual devemos falar sem tabus ou estigmas. Embora esteja associada a sofrimento, muitas vezes intenso, lidamos com ela durante vários momentos da nossa vida. Logo na infância quando somos confrontados com o desaparecimento de pessoas que nos são muito queridas, bisavós, avós, tios ou amigos. Falar sobre a morte ajuda-nos a suportar a dor, a procurar conforto junto de quem está a sofrer connosco e a conseguir ajudar de forma mais eficaz aqueles que perderam alguém.


PODEMOS DIZER QUE FALAR SOBRE A MORTE TORNA-A MAIS COMPREENSÍVEL?

Sim. Tornando-nos mais preparados para a encarar. Ajuda, por exemplo, um pai a explicar ao seu filho o motivo pelo qual o avô já não está presente. Ao contrário da maioria dos assuntos, a morte tem-se tornado cada vez mais um estigma, evitando-se falar sobre ela. Isso deve-se ao facto de se evitar o incómodo ou a dor imediata. Hoje, felizmente, conseguimos tratar a dor do parto, com recurso a anestesia, ou a dor emocional decorrente de uma depressão com antidepressivos. Isto é fantástico. Por arrasto evitamos, cada vez mais, o desagradável ou o doloroso das situações que nos levam desenvolver estratégias de adaptação saudável. Por exemplo, ao não irmos a determinada entrevista de emprego com receio da tristeza que podemos sentir ao ouvir um “não”, impede-nos de agir, de nos adaptarmos, de suportarmos frustrações maiores. Ao falar da morte acontece algo semelhante.


A COVID-19 PROVOCOU VÁRIOS FUNERAIS EM QUE NÃO FORAM FEITAS AS DEVIDAS DESPEDIDAS... QUE IMPACTO TERÁ ESTA QUASE QUE “AUSÊNCIA DE DESPEDIDA” NA SAÚDE MENTAL DOS ENTES QUERIDOS?

O processo do luto foi muito bem descrito pela psiquiatra americana Elisabeth Kübler Ross. Ela dividiu-o em cinco fases: negação, revolta, negociação, tristeza e aceitação. Claro que nem todos vivemos estas cinco fases quando perdemos alguém próximo, e podemos saltar com naturalidade uma ou outra, mas o fundamental é que se chegue à última fase, à aceitação, de uma forma que não seja excessivamente demorada. Acontece que, em alguns processos de luto, a ausência de uma despedida presencial, como aconteceu durante a fase crítica da pandemia, pode ‘prender’ quem se despede numa das fases anteriores. Isto depende, obviamente, de vários fatores. Um pai que não teve oportunidade de ver o corpo do filho falecido pode permanecer na fase de negação durante muito tempo, vivendo como que se este não tivesse realmente falecido.

DURANTE A FASE DE COVID-19, ESSA SENSAÇÃO DE FICAR PRESO EM DETERMINADAS FASES FOI COMUM?

Não. É algo relativamente incomum. Trata-se até de um fenómeno altamente perturbador, principalmente para os que o rodeiam. A mesma situação pode levar a uma fase de revolta muito intensa, com revolta para com a pessoa ou pessoas que poderão ter transmitido o vírus, contra os profissionais de saúde (pois fica a incerteza de que tudo foi feito). Pode, principalmente, levar a uma revolta contra o próprio, por este não ter conseguido despedir-se do seu ente querido da forma que este merecia. A situação mais comum neste tempo de pandemia deveu-se à ausência dos rituais de despedida como o funeral. O funeral tem um papel muito importante na nossa sociedade. É um momento de partilha de emoções entre as pessoas mais ou menos próximas do defunto. É um ritual em que se vive a partida de alguém, ajudando a que as pessoas possam confirmar essa partida. É também um momento de aproximação de familiares desavindos, capaz de sarar conflitos que não seriam resolvidos de outra forma. Por último, é um momento em que o lugar-comum de várias exaltações das qualidades da pessoa que parte. Esta enumeração das virtudes da pessoa, mesmo que por vezes de forma exagerada, ajuda a que a família sinta que a vida do seu ente querido teve um significado e que, por isso, pode partir em paz, pois deixou um legado de bondade e gratidão durante o tempo que esteve entre eles.


JÁ TEVE PACIENTES QUE O PROCURARAM POR UM “LUTO MAL RESOLVIDO”, DIGAMOS ASSIM?

Sem dúvida. As reações de luto são geradoras de muitos sintomas psiquiátricos. Mesmo os lutos que são feitos de forma saudável. A tristeza, a ansiedade, a insónia, a falta de motivação e até as ideias de morte são comuns e em intensidades muito semelhantes a episódios depressivos. Muitas vezes, as pessoas procuram o psiquiatra no sentido de perceber se o que estão a sentir é normal ou é doença, e isto não ocorre somente nos meses que se seguem à perda. Estes sintomas ocorrem também com relativa frequência nas semanas que precedem datas marcantes. Por exemplo, as datas conotadas com situações negativas como o aniversário da morte, o aniversário do seu nascimento ou o feriado do Dia de Todos os Santos, mas, principalmente, em datas festivas em que a ausência de quem partiu é notada como um buraco que impede a alegria habitual da ocasião. Falo do Natal, da Páscoa, dos aniversários de quem fica e das festas habituais em família.


OS FAMILIARES PERCEBEM A RELAÇÃO DESSES SINTOMAS COM O LUTO?

Estes sintomas podem acontecer sem que os entes queridos percebam o motivo, pois, como disse, ocorrem antes da data e não se trata exatamente de uma doença, embora possa agravar doenças já existentes. Sempre tive casos de doentes com lutos “mal resolvidos” ou lutos patológicos, que acontecem sempre que a pessoa não consegue ultrapassar todas as fases do luto. A fase em que mais comummente os meus doentes ficam presos é à fase da depressão. Na maioria das vezes, estes casos são complexos e na sua quase totalidade necessitam de fazer medicação. Com a pandemia, notei um aumento significativo, embora não tanto como eu julgava. A COVID-19 matou, essencialmente, pessoas com idades elevadas e que de certa forma, os familiares já estavam relativamente mentalizados de que o tempo de vida das vítimas desta doença não seria muito maior. Quando as mortes ocorrem em idades mais jovens, quando a pessoa tinha uma vida social muito ativa e, principalmente, quando o familiar que sobreviveu também esteve infetado ao mesmo tempo, surge o sentimento de culpa pela possível transmissão da doença bastante comum.


O DISTANCIAMENTO SOCIAL A QUE TODOS ESTIVEMOS SUJEITOS NO ÚLTIMO ANO, TROUXE CONSEQUÊNCIAS? QUAIS?

Esta pergunta daria tema para uma ou várias teses. Vou focar-me na minha experiência clínica. O afastamento social, que tanto se tenta chamar de “afastamento físico”, levou ao surgimento e agravamento de várias perturbações psiquiátricas, em particular das depressões e das perturbações de ansiedade. As redes sociais dão a sensação de que estamos todos muito próximos e nem sempre isto é verdade. Nada substitui a presença física. E posso até falar na primeira pessoa. Quando, no primeiro confinamento, por motivos profissionais estive afastado da minha filha, da minha esposa e dos meus pais, durante quase dois meses, apesar de fazermos diariamente video-chamadas, foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.


E DEPOIS DO PRIMEIRO CONFINAMENTO, COMO LIDARAM COM A SITUAÇÃO?

Depois do primeiro confinamento, que regra geral foi bem suportado e visto como um curto período até voltarmos ao normal, o distanciamento que se seguiu levou a um verdadeiro isolamento social. As rotinas de socialização foram alteradas. As pessoas passaram apenas a contactar com quem tinham maior proximidade e somente para tratar de assuntos específicos. Ou seja, continuou-se a ligar aos familiares a perguntar se estava tudo bem, mas essa conversa foi-se limitando ao essencial, quase que como uma formalidade. Deixou de haver a conversa de ocasião, pois, salvo raras excepções, ninguém liga para a amiga afastada que costuma encontrar no café para falar sobre coisas banais. Este isolamento veio, então, agravar as depressões e complicar o seu tratamento e contribuir para o aparecimento de outras. As relações amorosas também foram afetadas. Se conhecer pessoas novas já era difícil, por causa do encerramento dos locais de convívio ou por receio de transmissão do vírus, então o aproximar de alguém de forma mais íntima tornou-se bem mais complicado. Isto levou a um agravamento dos casos de várias perturbações de ansiedade, de que é exemplo a perturbação de ansiedade social. Por fim, deixo aquilo que mais notei na minha prática clínica, os sentimentos de exaustão deste isolamento e também de desesperança quanto ao futuro. Esta questão tem-me preocupado, pois, são sentimentos que contribuem muito para a depressão e para o surgimento de ideias suicidas.

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